Tragédia de Brumadinho completa 5 anos

“Brumadinho não pode ser esquecido. Foram 272 vidas ceifadas pela lama tóxica de minério”, diz Helena Taliberti, que perdeu os dois filhos, Camila e Luiz, além do neto e da nora na tragédia de 2019 em Minas Gerais.

Há cinco anos, a Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), era engolida por lama na tarde de uma sexta-feira (25/01), até então, comum.

A barragem continha aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. O tamanho da mina equivalia a 14 Maracanãs. Nela, havia operários, engenheiros, técnicos, seguranças e administradores, que trabalhavam na extração anual de 8,5 milhões de minério de ferro.

Brumadinho foi a maior tragédia humanitária do Brasil. O rompimento da barragem tirou a vida de 272 pessoas, incluindo duas grávidas, além da contaminação de mais de 300 quilômetros do Rio Paraopeba, que atingiu a população de 26 cidades.

Helena e o marido, Vagner Diniz, passeavam na Avenida Paulista, em São Paulo quando souberam da tragédia pelo celular. Eles são pais de Camila Taliberti, que tinha 33 anos e era advogada especializada em direito digital, e de Luiz Taliberti, arquiteto, de 31 anos. Além deles, Fernanda, de 30 anos, esposa de Luiz, que estava grávida de cinco meses do Lorenzo, também morreu pela lama.

“Mandamos mensagens que ficaram sem resposta, ligamos para eles, os celulares não atenderam”, lembra Helena.

“O luto interrompeu a minha vida completamente. Eu perdi minha filha, meu filho, minha nora, meu neto. A família acabou. Não tem mais ninguém. Eu não vou ter outros filhos. Eu não vou ser avó. Acabou. É um luto que tem um peso sem fim. Não é um luto normal porque sabemos que poderia ter sido evitado.”, completa.

Helena e Vagner decidiram criar o Instituto Camila e Luiz Taliberti , em memória dos filhos. A organização, sem fins lucrativos, foi fundada em 2019, mesmo ano da tragédia, com o objetivo de defesa dos direitos humanos em duas vertentes: no empoderamento dos grupos vulneráveis, especialmente mulheres e na questão da proteção do meio ambiente.

“A entidade tem as feições da Camila e do Luiz”, conta Helena.

“A Camila era advogada e fazia trabalho Pro bono, a generosidade era essencial para ela. E o Luiz, arquiteto, tinha a sustentabilidade como eixo de seu trabalho. Olhava sempre para o presente e o futuro, achava que o que passou, ficou no passado e que era preciso mudar daqui para a frente. Então, o propósito do nosso trabalho junta a generosidade e empatia com quem é impactado pelas tragédias do presente e do futuro, entendendo onde e como o meio ambiente está sendo machucado. Vamos ver o que se faz, como é que a gente pode melhorar? O instituto está aí para isso”.

“Não estamos aqui apenas para cobrar e denuncia. Queremos oferecer a nossa contribuição para que a vida dos meus filhos e de tantas outras vítimas não tenham sido levadas em vão”, complementa Helena.

As investigações
“Para nós, a tragédia só começou no dia 25 de janeiro de 2019, porque a gente sabia que ela podia ter sido evitada. Só começou porque a gente soube depois, pelas investigações da CPI, que existia a possibilidade da barragem se romper. Então como é que você lida com essa com essa informação? Como assim eles morreram, mas não precisavam ter morrido? Para nós, é isso que fica na cabeça durante todo esse tempo. Como é que ainda não se fez nada?”, questiona Helena.

Até hoje as investigações não foram concluídas e ninguém foi condenado. As apurações apontam que o alto escalão da Vale S.A, responsável pela mina, e da TÜV SÜD, subsidiária alemã que garantiu a segurança da estrutura, tinham conhecimento do risco de rompimento da barragem.

A tragédia de Brumadinho derivou milhares de processos judiciais. No âmbito cível, o Ministério Público, a Defensoria Pública, o governo de Minas e a Vale assinaram um Acordo Judicial de Reparação Integral, em 2021, que conjectura o pagamento de R$ 37,68 bilhões em 160 projetos na Bacia de Paraopeba. Segundo a Vale, 68% do montante já foram executados.

Já na esfera criminal, a denúncia é feita pelo Ministério Público Federal. Além dos 270 homicídios qualificados, os denunciados respondem aos crimes contra a fauna, a flora e crime de poluição. Segundo promotores e procuradores, “a situação inaceitável (intolerável) de segurança geotécnica da Barragem I da Mina Córrego do Feijão era plena e profundamente conhecida pelos denunciados”, que teriam sido omissos e assumiram “o risco de produzir os resultados mortes e danos ambientais decorrentes do rompimento”.

Buscas por desaparecidos
Após cinco anos, os bombeiros ainda buscam por desaparecidos. Tiago Tadeu Mendes da Silva, engenheiro mecânico, Maria de Lurdes da Costa Bueno, corretora de imóveis e Nathália de Oliveira Porto Araújo, estagiária, estão entre as 272 vítimas.

Durante esses anos, as buscas já foram interrompidas por duas vezes por causa da pandemia de Covid-19, mas o trabalho interno de estratégias continuou internamente. Até 2024, foram mais de 1.800 dias de buscas.

As instalações dos Bombeiros estão em um clube da Ferteco, onde ficava a vila de funcionários da mineradora, a 200 metros da portaria da mina.

De acordo com a Vale, há obras de reparação, com barreiras e contenção do avanço do rejeito, recuperação do leito do córrego Ferro-Carvão e tratamento da água e restauração da vegetação. Segundo as autoridades, houve uma perda de 140 hectares de mata nativa.

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