O que a performance de Marta em sua última eleição pode indicar sobre a provável chapa com Boulos

Em 2016, o então prefeito Fernando Haddad (PT) disputava a reeleição em São Paulo sob as mais escuras nuvens que se abateram sobre o campo progressista desde a ditadura, com o auge da Lava Jato, a derrubada da presidenta Dilma Rousseff (PT) e a ascensão da extrema-direita.

Naquela ocasião, João Doria (PSDB) conquistou uma vitória acachapante ainda no primeiro turno, com 53% dos votos válidos. Haddad não passou de 17%. Duas ex-prefeitas progressistas da capital paulista também amargaram má performance: a ex-petista Marta Suplicy (então no MDB) teve 10% e Luiza Erundina (PSOL), 3% dos votos.

Quatro anos depois, Erundina seria a vice-prefeita na chapa de Guilherme Boulos (PSOL), que surpreendeu e chegou ao segundo turno, mas perdeu para o tucano Bruno Covas. Agora, ao que tudo indica, será Marta a vice da principal chapa de esquerda na capital, indicada por seu ex-partido, o PT, ao qual ensaia retornar.

A última vitória de Marta em São Paulo, contudo, ocorreu há mais de duas décadas, em 2000. Então no PT, Marta aplicou uma fragorosa goleada sobre Paulo Maluf (então no PPB, hoje Progressistas), conquistando quase 60% dos votos e tingindo de vermelho o mapa da cidade – algo de que o partido de Lula se orgulha até hoje.

As boas lembranças de Marta nas regiões periféricas da cidade, a partir de políticas como a construção do Centro Educacional Unificado e a criação do Bilhete Único, também são trunfos constantemente lembrados nas fileiras petistas.

Musculatura nas periferias é exatamente o que o PSOL tenta adquirir. É por isso que os entusiastas da chapa Boulos-Marta entendem que a aliança pode, em tese, incrementar as chances do campo progressista na disputa.

Mais de vinte anos se passaram, e será preciso uma nova e ampla pesquisa sobre a imagem de Marta Suplicy na periferia de São Paulo.

De cara, chama a atenção o desempenho dela em duas zonas eleitorais do extremo sul da cidade: em Parelheiros, conquistou expressivos 37% dos votos, ante 28% de Doria e 17% de Haddad. Perto dali, no Grajaú, a ex-prefeita também foi a mais votada, com 31%, contra 30% do tucano e 19% do petista.

Aquelas foram as únicas zonas eleitorais onde Doria foi derrotado. Quatro anos depois, em 2020, sem Marta na disputa, Covas levou a melhor nas duas áreas.

Além de Parelheiros e Grajaú, Marta superou Haddad em cinco zonas eleitorais: Capela do Socorro (18% a 17%), Guaianases (20% a 18%), Perus (18% a 17%), Jaraguá (17% a 15%) e Cidade Tiradentes (21% a 20%). Erundina, a candidata do PSOL, não venceu em nenhuma zona eleitoral.

Não houve segundo turno em 2016, mas em 2020, sim. Covas atingiu quase 60% dos votos na disputa contra Boulos – ainda assim, o candidato do PSOL levou a melhor, por exemplo, em Parelheiros (50,3% a 49,7%) e no Grajaú (54% a 46%). O desafio agora é ampliar a votação nas demais periferias da capital.

A eleição presidencial de 2022 trouxe um novo ânimo para a esquerda em São Paulo, contrastando com memórias menos favoráveis de eleições anteriores para prefeito. Na capital, Lula obteve 53% dos votos no segundo turno, superando os 46% de Jair Bolsonaro (PL), embora no estado em geral, Bolsonaro tenha prevalecido. Esse padrão de progressismo da capital em relação ao interior se repetiu na disputa para governador, na qual Tarcísio de Freitas (Republicanos) dominou o interior, mas Haddad ganhou na cidade de São Paulo com 54% dos votos.

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