Número dois da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) exonerado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o delegado de carreira da Polícia Federal Alessandro Moretti afirmou nesta quarta-feira (31) que ele, como diretor-geral em exercício, foi o responsável por determinar as apurações internas relacionadas ao uso ilegal do sistema da agência para monitorar autoridades e políticos. “Grande parte do material que instrui o inquérito da PF é fruto da apuração conduzida com total independência na Abin”, declarou.

A dispensa do cargo de diretor-adjunto da instituição foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União na terça-feira (30). O movimento ocorre depois de um novo desdobramento da Operação Última Milha, a Operação Vigilância Aproximada, que investiga um suposto esquema de espionagem ilegal envolvendo, entre outras pessoas, o ex-diretor-geral da agência Alexandre Ramagem e o vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro.

“Todo o material probatório coletado e produzido pela Abin foi compartilhado com a Polícia Federal, que também teve atendidas todas suas solicitações à agência”, reforçou o delegado.

Moretti foi diretor de Informação e Inovação da Abin a gestão de Jair Bolsonaro. No entanto, durante a troca de governo, foi promovido para ser o braço direito do diretor-geral da agência Luiz Fernando Corrêa, uma decisão do próprio novo comandante. Ao contrário de Moretti, Corrêa permanece na liderança da Abin.

No comunicado após a exoneração, Moretti agradeceu a confiança de Corrêa e a oportunidade de trabalhar por 33 anos na Abin. Ele também citou a transição da agência, que deixou de ser subordinada ao GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e passou a integrar a estrutura da Casa Civil. “Diversas medidas foram adotadas e muitas outras estão sendo implementadas pela atual gestão para a modernização da gestão da Agência, o que garantiu, inclusive, a citada apuração ampla e independente.”

A operação
A Polícia Federal realizou nessa segunda (29) uma operação para investigar o monitoramento ilegal realizado pela Abin durante o governo Bolsonaro. O principal alvo foi o filho do ex-presidente e vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro.

Nove endereços, incluindo a casa e o gabinete do parlamentar na Câmara Municipal, foram alvos das buscas e apreensões. A operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Na última quinta (25), o deputado federal e ex-diretor-geral da agência Alexandre Ramagem (PL-RJ) também foi alvo de busca e apreensão. O gabinete do parlamentar na Câmara dos Deputados foi um dos endereços visitados pelos agentes.

Os agentes apreenderam celulares e notebooks no apartamento funcional de Ramagem. O R7 apurou que um notebook e um celular ainda pertencem à Abin. Os indícios são de que o deputado continuou recebendo informações de dentro da agência mesmo após deixar o comando do órgão.

Relembre o caso
Em 2023, a PF descobriu indícios do uso de ferramentas de espionagem ilegal, como a First Mile, por servidores da Abin — entre elas, um programa de invasão de computadores que permitia acesso a todo o conteúdo privado dos alvos. Os softwares foram encontrados nos equipamentos apreendidos durante as buscas.

A suspeita é de que os investigados usavam técnicas que só são permitidas mediante prévia autorização judicial.

Na época, a PF também cumpriu 25 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, em São Paulo, em Santa Catarina, no Paraná e em Goiás. Os agentes encontraram US$ 171 mil em espécie na casa de um dos suspeitos, em Brasília.

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